sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sobre pessoas especiais e partidas.

Desenvolvi o gosto por escrita lá pelos meus onze, doze anos. Considero a escrita uma ferramenta poderosa de comunicação, porque há muita sensibilidade e maior poder de organização das nossas emoções através do que fica grafado; a escrita permite que pensemos melhor e organizemos nossa linha de raciocínio, permite que criemos ambientações, atiçamos curiosidades e, mais do que qualquer coisa, permite que sintamos de um modo mais profundo o que ocorre ao nosso arredor.

Consigo dizer que, portanto, ler e escrever são hobbies desenvolvidos ao longo dos anos. Sou uma articuladora relativamente boa - não acho arrogância admitir algo assim, com uma retórica bem desenhada e consigo levantar alguns pontos, em algumas conversas, de maneira bem acertada. Ainda assim, sinto que consigo me abrir melhor, pensar melhor, sentir melhor, através da escrita. Há algo de muito terapêutico nisso - talvez porque eu possa voltar e reler tudo. Talvez porque eu consiga criar "linhas do tempo" que me façam perceber que alguns comportamentos são danosos. Talvez porque você realmente consegue perceber um fluxo de mudança na sua vida, mesmo naqueles anos em que tudo parece o mesmo.

Relendo várias coisas, percebo que, na verdade, a única coisa fixa em minha vida foi, de fato, a noção de gostar de me expressar atrás de uma tela de computador, digitando, criando histórias, lendo histórias. Acho que sou, afinal, um tipo mais introvertido de personalidade, apesar dos momentos "ponto fora da curva".

Fora de toda essa introdução, uma viagem complicada que tenho feito nos últimos tempos se refere, em um grande resumo, às mudanças necessárias. Isso geralmente ocorre quando velhos padrões não são mais condizentes com sua personalidade, com seu íntimo e, mais do que qualquer coisa, com a forma que você visualiza o mundo e interage com as pessoas; nas duas últimas semanas, principalmente, penso muito sobre como bagagens pesadas que nos acorrentamos muitas vezes não fazem mal somente a nós, mas como também a pessoas do nosso convívio - principalmente as de convívio mais íntimo.

Algumas vezes só percebemos isso quando a merda estoura no ventilador, com o perdão da expressão; quando a mágoa se torna grande, quando o rancor fica pesado e quando o clima fica mais cinza. Relações em geral são interdependentes no que diz respeito a comportamento - elas dependem, afinal, da interação entre duas ou mais pessoas, mas isso não impede que você veja tudo de um ponto de vista pessoal sobre o que você faz e, mais, o que você pode fazer a partir de agora.

Sou ferrenhamente crítica quando magoada. Não digo isso sob um ponto de vista positivo. Prejudiquei bastante relações na minha vida sendo tão dura. Faltou-me leveza em diversos momentos - momentos que por si só já eram pesados e acabei me prejudicando ainda mais. Já comentei algumas (muitas) vezes com algumas (muitas) pessoas que sou minha pior crítica - e é verdade, sou mesmo. Mas também sou com as outras pessoas, e hoje percebo que as coisas não precisam ser assim. Não precisa de todo esse peso. Dói o que algumas pessoas fazem, consciente ou não, contra você? Dói, mas também não faço isso com as pessoas? Quão empáticos realmente somos, afinal?

Passo por uma situação delicada com uma pessoa que gostaria de resolver. Gostaria que as coisas fossem simples, verdadeiras e que agregassem tanto quanto no início. Sinto uma falta gigante daquele início - mas como se recupera isso? O perdão é algo que você pode dar, claro, mas você não pode obrigar outra pessoa a perdoar você.

Às vezes tudo o que a gente pode fazer é, além de seguir em frente, mudar a si mesmo. Reconhecer suas falhas, optar pela mudança, aceitar.
Às vezes, tudo é questão apenas de aceitar.

sábado, 28 de maio de 2016

Dois pés firmados.

Feche os olhos. Inspire fundo. Pense que você está em 2010, com aquela brisa da manhã ainda esfriando o corpo, o sol ainda tímido.
Você estava onde precisava estar, sentia isso, via isso. Naqueles poucos segundos, a sensação de compreensão lhe parecia eterna – tudo daria certo. O caminho estava traçado independentemente da rota tomada – aquele seria o caminho.

Feche os olhos, inspire fundo. Abra os olhos. Veja o que você pode fazer.
Há muito o que se fazer.

As decepções não necessariamente matam, mas as feridas que elas causam e as cicatrizes que elas deixam não são das melhores lembranças que carregamos ao longo da nossa existência.

Alguns sonhos terminam por intermédio de outrem; outros, por nossa própria ansiedade e inexperiência. O problema talvez nem sejam os desejos e anseios que deixamos para trás, mas sim a eterna redescoberta e redefinição de conceitos que possuíamos sobre a vida e sobre as pessoas. Às vezes sentimos que damos voltas em círculos, que não saímos do lugar.

Enquanto isso não é necessariamente verdade, porque saímos de algum lugar, eventualmente, algumas vezes as pessoas deixam essas impressões em nós, porque bom – é, traumas acontecem. Eles surgem e, às vezes, você pode erguer dez tipos de armadilhas para se proteger disso e, mesmo assim, alguma coisa ainda escapa por entre os dedos.

Talvez esse seja o motivo pelo qual devemos, sempre, pautar nossa felicidade em um sentido de dentro-fora, não o inverso – ainda que, às vezes, isso possa soar arrogante, independente demais, frio demais; ainda que você pense que isso pode significar alguma falta de empatia da sua parte. Às vezes não é – às vezes é tão somente proteção. Autoproteção.

Às vezes as pessoas surgem nas nossas vidas para mostrar que estávamos certos – mesmo quando, na verdade, queríamos estar errados. Às vezes, elas surgem para mostrar que o mundo é mais colorido, enquanto outras surgem para acinzentar uma vida.
Às vezes achamos que conhecemos uma pessoa como conhecemos a nós mesmos – mas conhecemos a nós mesmos? Por ser do tipo introvertida, gosto – e quero – pensar que sim. Mas e sobre as outras pessoas?

Bom, pessoas decepcionam.

Você aprende que a única promessa com a qual você pode contar é a própria – você promete porque você sabe o que pode aguentar ou não, você sabe o que o caminho contrário, ou mesmo o certo, condizente às suas palavras, pode constar no itinerário de vida de outrem.

Você aprende que “pode contar comigo” às vezes significa tanto quanto um guardanapo usado. Você aprende que nem todo mundo está disposto a se colocar de lado para ajudar alguém – e sem cobrar isso de você, eventualmente. Na verdade, líquido como é o mundo hoje em dia, quem quer que diga “conte comigo” e realmente ter algo assim firmado em pedra provavelmente é tido como louco.

Às vezes, você deseja ardentemente essa ajuda, mas descobre que isso é apenas uma frase para que a outra pessoa se sinta prestativa e “uma boa pessoa”. Boas pessoas no cardápio atual não são as que realmente fazem alguma coisa. Essas são as loucas.

Você aprende que o mundo é mais cinza, menos preto e branco do imaginava e bem menos colorido do que gostaria. Alegrias são realmente encontradas em pequenas coisas, situações efêmeras e pequenas que duram pequenos segundos, eternos o suficiente para que fiquem gravados na retina e na memória.

Você aprende que, na maioria das vezes, estamos realmente sozinhos.

Mas tudo bem, você já sabia disso. Na verdade, você já sabia da maioria dessas coisas, mas queria estar errada. Você queria ter esperança, ser provada o contrário, acreditar no melhor das pessoas, no melhor que elas demonstravam.

Feche os olhos. Inspire fundo. Pense naquele punhado eterno de segundos onde tudo fazia sentido, onde o sol começava a te aquecer e a esperança em si própria e nos seus sonhos era o que te fazia ver além de tudo isso.

Você não era tola de não confiar nas pessoas – não é porque você era uma traumatizada que desejava o contrário; você desejava o contrário, sim, mas você tomou a dor e a transformou em sua aliada. Você sabe quem é, sabe como age na maioria das coisas, sabe o que a faz dar um passo atrás do outro; assim, a desconfiança era tão somente uma lição aprendida sobre como confiar em si, antes de escutar qualquer outra palavra, de qualquer outra boca que não seja a sua.

Você não era tola de prestar atenção em ações, em vez de palavras – é esta a maneira pela qual você se expressa, porque é através de ações que você consegue deixar sua marca no mundo. Você gosta de escrever, é verdade, mas nada melhor do que aquele pequeno gesto, que ao mundo poderia passar desapercebido, mas não some dos olhos de quem recebeu tal atitude. Falar a deixa confusa e cansada, perde o foco, não faz perceber as ilusões que um punhado de som pode lhe causar. Esta é a maneira pela qual você consegue perceber as reais atitudes das pessoas, o quão verdadeiras elas são ou não, o quão firmes elas são ou não.

Você não era tola de não pedir ajuda – um pouco extrema, sim, e isso foi uma coisa boa que o tempo a ensinou: você pode ser um pouco mais flexível nesse sentido. Tantas pessoas precisam de ajuda e, eventualmente, você precisará também. Não há vergonha nisso. Mas você não era tola de não pedir ajuda – você era dura, firme, beirando ao agressivo, quando necessário, e você sabia disso. Você sabia que aguentava mais do que muita gente, que cada cabeça lhe rendia mais gás, mais gasolina, mais fogo, mais gana. Esta é a maneira pela qual você funciona, esta é a maneira pela qual você busca mudanças.

Você não era tola de ver um mundo antes de ver relações interpessoais – foi desta maneira, ao mesmo tempo em que comedida e cautelosa em suas relações, que você encontrou alguns de seus maiores laços, de suas melhores companhias, das pessoas que lhe arrancam os melhores sorrisos. Estas pessoas deixam o cinza menos escuro, estas pessoas deixam a rotina menos violenta. Elas são fortes e duras, cada uma a sua maneira, e quando vocês estão juntos você se sente como se todos fossem irmãos de guerra com seus braços dados. No meio do caminho apareceram algumas maçãs podres, algumas pessoas que escureceram seu cinza e algumas pessoas que tiraram o seu foco, mas a diferença entre um mundo líquido e você é que não há o descarte de tudo o que foi aprendido, mas sim o refinamento de quem você aprendeu que é você.

Você não era tola de acreditar em você; o único caráter que você conhecerá a vida toda será o seu. As outras pessoas às vezes distribuem pequenos lances que você consegue ver (e ser grata por isso), sendo positivos ou não. Quando você diz “eu posso fazer isso” ou “confie em mim” você realmente quer dizer isso, porque você não é o tipo de mulher que “espera pelo melhor” – você faz esse melhor acontecer. Você planeja, você cai, você mata e morre, você luta. Acima de tudo, você luta. Você aprendeu a lutar, e você luta bem.

Você não espera, não mais, não depois de ver como é o outro lado. Você faz, você não espera – não de uma maneira injusta, mas sabendo quando está correta.

Às vezes dói, é verdade. Às vezes sangra. Mas tantas coisas já sangraram e feriram também, e você saiu de todas elas mais dura, mais firme, mais mulher, mais forte. Mais Tamara.

Uma vez, li que Tamara significava guerreira; é mentira - significa fruto da tamareira. Não há lá muita nobreza ou força nisso.
Mas a verdade é que eu não preciso de um significado oculto do nome.

A verdade é que sou o próprio demônio quando quero. E tenho consciência disso.

Gostaria que as coisas fossem mais coloridas, sim. A desilusão de perde-las ainda é forte... Por outro lado, nada é mais forte do que aqueles segundos na praia, quando senti todas as oportunidades de conquista ao alcance das minhas mãos.

Posso ser do tipo “late bloomer”. Posso ser tida como “atrasada” ao mundo, não me importo exatamente com isso... A verdade é quanto vejo de mim no espelho. A verdade é o quanto sinto dessa força em meus dedos. A verdade é o quanto eu vejo em meus olhos quando a imagem é refletida.


Talvez o mundo não seja tão cinza, afinal. Mas vermelho. 

E não, não é vermelho de referência política. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre cartas nunca enviadas.

Recentemente, parecemos fora de sincronia.
Os dias em que nos encontramos ou nos tocamos são mágicos e raros, como brisas imprevisíveis de primavera; é difícil determinar quando elas nos serão bem vindas. Talvez sejam as vidas, talvez sejam os momentos, mas ao final do dia o que importa é a sensação incômoda e dolorida que fica ao pensar no quanto apreciamos um ao outro, ao mesmo tempo em que parecemos tão incapazes de manter um passo, um compasso que outrora nos parecera tão natural - tão nosso.
Meu amor, peço desculpas pelo ceticismo. Eu não imaginava o quão fundo fui tocada pelo lado não-tão-colorido da vida, ainda que traumas sejam característicos de cada pessoa que pisa por esta Terra.
Não sou especial ou diferente dos outros pelo o que passei, já que todos têm seus próprios problemas para resolver e obstáculos para superar. Cada um tem sua história, e não sou ou fui diferente.
Mas, mais uma vez, peço desculpas pela descrença. Eu gostaria de dizer que sou como os amores que escrevi, mas mesmo eles nunca foram dados a um romantismo sem fronteiras. Sempre fui toque, sempre fui olhar, sempre fui o momento, o presente. Sempre fui uma extensão do outro, outro que me foi inexistente por período indeterminado. Não me recordo de amores que duraram anos em espera, não me recordo de amores que ultrapassaram níveis de impossibilidade física.
Não acredito no tempo e, ao fim do dia, não sou tão dada assim à metafísica das coisas.
Eu adoraria... Talvez sejam pessoas mais preenchidas pela sensação de que podem realizar o impossível, emocionalmente falando, e talvez sejam essas pessoas que digam, ao final do dia, que "o amor vale à pena!", "o amor tudo suporta!", "se é amor, acontecerá independentemente do que acontecer!", mas eu?
Eu quero algo mais simples, quero um beijo na bochecha, uma flor, uma risada, uma companhia. Quero ter uma mão para segurar no fim do dia, e não despedir-me pelo computador e de uma realidade alternativa para, ao fim, encontrar-me em um quarto vazio.
Não acredito no tempo. Ele ameniza dores, mas dependendo da situação, não duvido de sua capacidade de amenizar amores, também.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Turn the page.



Nada me preparou para o que ocorreu esse ano, ainda que os anos anteriores tenham sido, de fato, um prefácio para tudo o que aconteceria. Ao fim de tudo, faltando um mês e meio para me despedir de 2012, não posso afirmar com certeza que me encontrei; ainda me acho perdida em vários aspectos. No entanto, como ouvi uma pessoa querida falar essa semana, “talvez agora você (eu) desça do ápice e entre na normalidade”.

Muito do que aconteceu que foi muito visceral, muito pessoal. Tenho o costume de manter uma espécie de diário, prática adquirida desde 2009 por conta do cursinho, e ali sempre desabafei de tudo, sem meias palavras e sem necessidade de me conter. Faço isso porque percebi o quanto me fazia bem reler tudo isso no fim do ano e perceber o fluxo de mudança, seja de pensamento, sejam de acontecimentos. Ajuda a refletir e, mais, me ajudava a passar por diversos momentos difíceis, o que inclui o pepino na vida pessoal. Esse ano, no entanto, mal consegui sentir vontade de fazer isso, porque passei quase que a totalidade desses meses me sentindo encurralada ou incapaz de qualquer coisa.

Tive o “pepino pessoal”, algo que não soube lidar – e talvez nem precisasse lidar – por, mais ou menos, quatro ou cinco anos. Só agora percebo o quanto tudo me afetou e quantas desconfianças e receios possuo, hoje, por conta disso. Também percebi que, no período dos vestibulares, por mais que eu me esforçasse para segurar as pontas no meio de toda essa bagunça, isso me afetou. “Não passar” não é um resultado exclusivo e direto de toda a situação, mas digamos que minha estrutura não era das melhores para enfrentar com maior segurança o que precisava e o que realmente fazia parte do que deveria se enquadrar na minha idade e no que deveriam ser minhas preocupações. 

Hoje, sinceramente, essa parte de vestibular não importa mais em porcaria nenhuma (caso alguém entenda que esse é o assunto por trás de tudo. Se você entendeu isso, releia a parte "pepino pessoal"), porque são outros dias, outro pensamento, outra idade, outros sonhos, mas compreender o que estava por trás na época, emocionalmente falando, foi pesadíssimo e essa parte foi a que pegou. Muito do que acontecia não era problema meu, não era na minha vida, e mesmo assim me afetava direta e indiretamente, e eu não tinha ideia de como proceder, afinal, de novo, “o problema não era meu”. Mas complicado, sofria com um monte de consequência do mesmo jeito.

Em 2012, na pior das expressões, a merda foi jogada pra cima e o negócio foi feio. A parte boa? 

Reconheci tudo o que adquiri de trauma e tudo o que amadureci com tudo isso e o quanto me transformei, realmente, em uma pessoa forte. A parte ruim foi o extremo desgaste físico e emocional em alguém que já estava bem cansada de todo esse drama de anos que piorou em fevereiro e parece (parece) que começará a, finalmente, se arrumar e melhorar agora, em novembro.

No meio dessa bagunça toda acabei vacilando a respeito de quem eu era. Não que eu tenha perdido minha moral ou agido errado, ou feito qualquer coisa na qual eu me arrependesse mais tarde, mas em termos de reflexão e todo o resto não sabia direito quem eu era, ou por que fazia o que fazia (por que Direito? Por que desejei tanto por Polícia Federal? Por que deixei tanta coisa para trás? Por que não fiz cursinho de novo? Por quê? Por quê?).  Achei-me fraca, achei-me perdida, achei-me nada. Eu pensava em tudo o que sonhava lá atrás e não sentia tesão pelo caminho de “tentar conquistar”. Foi complicadíssimo, ainda mais porque achava, até então, que enquanto tudo estivesse uma bagunça, pelo menos a parte “profissional” caminhava bem... Acho, de verdade, que em muitos momentos nos anos anteriores era isso que me fazia segurar as pontas. Encontrar-me “sem nada” foi um inferno, porque não via norte nenhum, parecia não existir nada na qual eu pudesse me apoiar e acreditar que, apesar dos pesares, meu futuro tinha alguma esperança, aquela ideia de que o amanhã poderia ser melhor. Só vi drama, drama, drama, drama.

E 2012 foi um ano em que eu senti profunda raiva de todos esses problemas.

Por outro lado, apesar de não ter tomado as decisões mais conscientes da minha vida nesse ano e isso ter resultado em uns impulsos bem retardados, percebi que tenho um mecanismo interno bem interessante, o motivo pelo qual digo que tudo isso me fez passar da “menininha do papai” para alguém que às vezes não percebe a força que tem: não consigo cair em depressão, acho. Lógico que tive duas ou três semanas em que chorei copiosamente (quem é de ferro?), não comia e achava tudo “ai meu Deus, que mundo cruel”, achei que nada ia para frente. Depois disso começo a achar a dor boba, começo a achar que tem solução, começo a planejar rotas de fuga. Por mais imbecil que pareça, não tinha percebido isso até então. Acho que isso é porque, antes de tudo dar um vislumbre de que poderia melhorar e me sentia mergulhada em um problema pegajoso demais para ter perspectiva de melhora, eu me sentia muito sozinha, e isso machucava... Mas no meio dessa sensação toda, eu percebia que, já que estava sozinha, se eu só sentasse e chorasse o bicho pegava, e só, e nada melhoraria.

Então, se eu estava sozinha, eu era a única responsável pela minha melhora. Como isso surgiu no final da formação da minha personalidade, acho que isso é muito instintivo, hoje, então não sei como explicar, exatamente, como tudo isso funciona. Só sei que está aqui, e só sei que vi isso diversas vezes nesse ano.
Percebi que sou muito boa com planejamento, ou pelo menos para “me virar” nos problemas. Ótimos planos, mas peco um pouco (bem, ainda), na execução.

O complicado foi que, para alguém que tinha se perdido, as decisões foram... Não satisfatórias. Não no sentido de conseguir algo, mas de satisfação pessoal. Vi-me entrando em entrevista de emprego por dinheiro, em área dentro de Direito que nunca foi o que quis e nem tenho vontade, me vi preocupada com acúmulo de capital. Eu queria sair do nabo, e só isso importava. Só assim achei que me livraria das coisas e faria diferente. A parte ruim? Fazer isso no sufoco é uma bosta, ainda mais quando você se sente dando tiro no escuro e com aquele “quê” de que você sabe que não é para você, mas mesmo assim, oe, aqui estou. A parte boa é que saí da entrevista sem o estágio e relembrando porque eu queria, efetivamente, as coisas que queria antes. Senti um pouco mais de segurança nas minhas decisões a partir de então. Senti que tinha me encontrado um pouco de novo, finalmente. As perguntas que me fizeram lá me fizeram pensar... E se indecisão é ruim, nesse caso ter transparecido que pensava na vida foi ótimo. Dinheiro é bom, mas sempre quis fazer mais pelos outros do que ganhar uma quantia boa por mês e, apesar de que isso me faria ajudar alguém, de algum jeito, não era e nunca tinha sido algo que eu queria, de fato. Então isso foi bom, senti um espírito velho de um norte de volta, e isso era tudo o que eu precisava. 

Algo que me ajudou muito esse ano, principalmente no que diz respeito a superar determinados pensamentos como desconfiança e descrença excessiva nas pessoas foi, justamente, confiar. Nessa hora surgiram pessoas muito, muito pontuais e que, sem elas, tudo teria sido muito mais difícil... O que me prova bastante o quanto não estou desamparada, não estou sozinha, seja por pessoas que gostam de mim, seja por Deus por me colocar essas pessoas na vida, apesar dos pesares. Foi um caminho com duas coisas bem importantes na minha vida.

A primeira foi que tive um suporte maravilhoso nos piores momentos, mesmo não reconhecendo isso na hora e achando tudo horrível ou, mais, mesmo me sentindo horrível por preocupa-lo e fazendo de tudo para que ele fosse embora, ao ponto de dizer isso com todas as letras. Ele não foi. E, mais, me provou muito sobre o tamanho de cumplicidade, confiança, camaradagem e lealdade que duas pessoas podem ter uma pela outra, algo que às vezes ainda acho tão inacreditável e tão bonito de ver (sem contar quão feliz de saber que sou eu quem vivencia isso). Não consigo colocar em palavras o quanto essa ajuda específica foi importante, o quanto agradeço por isso e nem o que significou na minha vida, mais do que para o momento. Mais do que falar “me apaixonei por ele por vezes e vezes”, entendi na verdade porque vezes e vezes um sempre se apoiou e se apoia no outro por seis anos, mesmo quando não percebíamos que fazíamos isso. Entendi porque nos estimamos tanto como amigos. Entendi como sou grata a tudo, e o quanto espero retribuir toda essa ajuda e apoio um dia, o quanto espero que ele entenda que eu sempre estarei ali, quando precisar, do mesmo jeito que esteve para mim. Isso é algo que sei que não vai se perder. 

A segunda, obviamente, consequência do suporte, foi perceber que muito do que ocorreu é exceção, e não regra, e que existem diversas pessoas que, sim, são mesmo amigos e parte de uma família concordada na qual posso confiar e me apoiar. Recebi conselhos muito significativos dessas pessoas, gente até que nem imaginava que estimava tanto o contato que tínhamos, e isso fez toda a diferença. Deixou tudo mais suportável e mais tranquilo... Ao mesmo tempo que me fez ser muito grata por, mesmo no perrengue, ter aprendido tanta coisa e ter descoberto tanta coisa, além de ter sido presenteada conhecendo gente tão, tão boa.

Não sei exatamente o que vai acontecer, nem exatamente em qual posição me encontro... Mas algumas coisas começam a dar vislumbre de, se não melhora, mudança. Além de tudo, tenho me sentido bem mais orientada sobre o que fazer, e espero uma postagem bem mais explicativa sobre essa parte até o fim do ano. A postagem saiu bem confusa, na verdade... Mas é o momento. Mas no momento, o que encontrei? Sou amparada, sou forte, sou uma pessoa boa. Tenho descoberto coisas novas e afirmado o que antes já era afirmado, mas o importante é toda a arrumação feita.

O importante é que no meio da bagunça, tenho me encontrado; tenho descoberto mais um monte de coisas. E, mais, tenho me sentido grata pelo perrengue, porque cresci de um jeito que nunca imaginei que conseguiria. Isso faz toda a diferença. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dias chuvosos

 E no meio dessa desconstrução toda, vim pensando na Tamara que ignorei por pensar que a personagem idealizada na mente juvenil era mais interessante e mais digna de conseguir as coisas. Afinal, sucesso parecia combinar mais com uma personalidade séria, compenetrada, durona e toda cheia de traumas.

Bobagem. Traumas são legais para heróis de histórias dramáticas, aquelas heroínas de livros que passam todo o tipo de perrengue possível para ser minimamente feliz - ou pelo menos tranquila - no final, e eu nunca me enquadrei direito nisso. A sensação é destrutiva, ainda mais porque por mais que eu achasse que era correto me manter naquela postura, meu interior nunca foi dado àquele feeling todo. Querendo ou não, sou meio complexa e cheia de paradoxos demais para gostar de ficar no sentimento de dias chuvosos e céu cinzento.

Uma vez li um comentário sobre uma história que escrevi de que envolvia os leitores porque a escrita era bastante intensa... Pode parecer a coisa mais burra do mundo, mas foi recente a percepção que tive de que o que fazia, simplesmente, era jogar minha personalidade do papel. Eu sou intensa, e muito, e para alguém que se achava toda controlada e fria, isso é tanto legal quando ruim e assustador, porque muitas vezes, agora, quando me apercebo de que agi sem nenhuma reserva, me sinto vulnerável. Mas, ao mesmo tempo, como poderia agir diferente? 
A parte legal é que não consigo mais negar isso, e fico feliz por um lado de me conhecer um pouco mais. Sou tempestuosa, meu temperamento é volátil, mas não ao ponto de me transformar em uma pessoa instável, nem ao ponto de descontar algo em alguém cegamente. Nessa parte sou controlada, porque apesar do fogo que corre dentro de mim não me dou a determinados riscos, o que pode ser sensato, por um lado... Ao final, tem sempre um lado meu que intui sobre até onde é bom ser toda "se joga primeiro, pensa depois". Mas sinto demais, e sinto muito. A alegria é contagiante, a raiva é espumante e a tristeza é meu fim do mundo... Pelo menos por algumas horas.
E o melhor de tudo é a compreensão de que tudo isso não me faz mais ou menos competente em algum quesito da minha vida. Pode parecer imbecil, mas demorei demais para me aperceber disso. Disso, e da noção que em algum momento tinha formado de que qualquer escolha profissional deveria afetar minha personalidade ou minha vida num geral. Não é verdade... Mas ainda preciso de mais algum tempo pensando antes de escrever aqui qualquer coisa sobre o assunto.

Ainda tem muito acontecendo, e espero que até o final do ano eu possa escrever feliz dizendo que entendo o motivo pelo qual passei por toda uma montanha-russa emocional, brincando de Descartes e desconstruindo tudo o que achava conhecer de mim para, finalmente, analisar parte por parte e compreender tudo de uma maneira muito mais lúcida. E talvez então essa sensação de estagnação que às vezes sufoca (agora muito menos do que no início) seja aliviada, e eu entenda que tudo o que nos acontece é necessário não apenas para crescermos e melhorarmos enquanto pessoas, mas também para o que pode nos acometer lá na frente.